Com atuações marcadas pela contenção emocional e uma câmera que observa os personagens à distância, a narrativa explora os limites entre o certo e o errado, questionando as diferentes percepções da verdade em uma sociedade cada vez mais dividida.

A capital paulista se transforma em um ponto de encontro para os amantes da sétima arte com a 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece até o dia 29 de outubro. Um dos principais eventos cinematográficos do país, o festival reúne 380 produções de mais de 90 países, entre títulos premiados internacionalmente, obras de diretores consagrados e trabalhos de novos talentos.
Entre as centenas de títulos que integram a programação, está “Fjord”, coprodução internacional, tendo sido produzido em conjunto pela Romênia, Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e França. O longa é dirigido pelo romeno Cristian Mungiu.
“Fjord” acompanha Mihai (Sebastian Stan) e Lisbet (Renate Reinsve), um casal romeno-norueguês profundamente religioso que se muda com seus cinco filhos para uma pequena comunidade na Noruega. Em busca de um recomeço, a família se aproxima dos vizinhos, os Halberg, apesar das diferenças culturais e dos valores que orientam a criação de seus filhos.
A tranquilidade é interrompida quando Elia, a filha adolescente do casal, aparece na escola com hematomas pelo corpo. O episódio desperta suspeitas de violência doméstica e leva as autoridades a investigarem os métodos de educação adotados pelos pais.
Ambientado nas paisagens geladas da Noruega, entre montanhas cobertas de neve e avalanches, o filme propõe um exercício de reflexão moral, nem sempre fácil de digerir. Com atuações marcadas pela contenção emocional e uma câmera que observa os personagens à distância, a narrativa explora os limites entre o certo e o errado, questionando as diferentes percepções da verdade em uma sociedade cada vez mais dividida.
Mungiu levanta uma série de questionamentos e faz questão de não oferecer respostas definitivas. Ao mesmo tempo, sua narrativa parece assumir um posicionamento bastante claro contra a burocracia progressista e o Estado paternalista. Com isso, surge uma dúvida incômoda: estamos diante de uma reflexão genuína sobre conflitos morais ou de uma obra tendenciosa, que, em determinados momentos, transforma os serviços de proteção à criança em vilões?
Essa contradição atravessa o filme e provoca um desconforto que nem sempre parece intencional. Afinal, como defender uma narrativa aberta a diferentes interpretações quando o próprio diretor parece conduzir o espectador a uma conclusão específica? Em alguns momentos, questionar o possível viés da obra parece tão necessário quanto refletir sobre os dilemas apresentados por ela. Ainda assim, há espaço para nuances e até para a redenção, o que torna ainda mais difícil compreender qual é, de fato, a posição do longa.
No fim, a confusão permanece. Não fica claro se essa ambiguidade moral é resultado de uma construção narrativa sofisticada ou de um olhar que não consegue escapar das próprias contradições. Talvez seja justamente essa incerteza que mais incomode: o filme exige que o espectador confronte suas convicções. E é desconfortável considerar a possibilidade de que aquilo em que acreditamos não seja tão incontestável quanto parece. E, apesar dessas ressalvas, “Fjord” funciona como um thriller envolvente, capaz de sustentar a tensão durante toda a sua extensa duração, mesmo quando suas escolhas narrativas deixam mais dúvidas do que reflexões.
O filme estreia nos cinemas comerciais do Brasil em 4 de fevereiro de 2027, com distribuição da Diamond Films.
Assista ao trailer de “Fjord”
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Por Rafael Abibi
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